Às vezes eu não me suporto, como você também às vezes deve não me suportar. Um jeitinho explosivo, mandão querendo tirar sua pele quando sou contrariada. Com uma dramaticidade impecável eu faço todos os tipos chatos do mundo. Puts… Ninguém me merece. Mas de repente, me acalmo com sua calma. Olho nos seus olhos, tão verdes misturados com caramelo e deixo ser, conter e te ter.
Entre os bons encontros,
nem tão discretos e secretos
lá estávamos.
Não suspeitava,
apenas desejava tudo aquilo
que um dia viria a ser um encontro de almas.
Não gêmeas,
mas almas que estão neste mundo para se completar,
sujeitar um ao outro apostas de um amor nem tão novo
e nem tão velho,
amor que foi se construindo através de mistérios
e idas
e vindas.
Até se concretizar.
Ah…
Porque não antes?
Talvez não era o momento certo
e o certo naquele momento era o errado
que de errado não tinha nada.
Nos amávamos indecentemente,
e simplesmente
sutilmente.
O que era passado tornou-se presente
e o futuro…
estamos esperando.
Dói-me a cabeça aos trinta e nove anos.
Não é hábito. É rarissimamente que ela dói.
Ninguém tem culpa. Meu pai, minha mãe descansaram seus fardos,
não existe mais o modo de eles terem seus olhos sobre mim.
Mãe, ô mãe, ô pai, meu pai. Onde estão escondidos?
É dentro de mim que eles estão.
Não fiz mausoléu pra eles, pus os dois no chão.
Nasceu lá, porque quis, um pé de saudade roxa,
que abunda nos cemitérios.
Quem plantou foi o vento, a água da chuva.
Quem vai matar é o sol.
Passou finados não fui lá, aniversário também não.
Pra quê, se pra chorar qualquer lugar me cabe?
É de tanto lembrá-los que eu não vou.
Ôôôô pai
Ôôôô mãe
Dentro de mim eles respondem
tenazes e duros
porque o zelo do espírito é sem meiguices:
Ôôôôi fia.”
Adélia Prado
Fazer de conta que a sua agora é a minha mão
Mas eu não vou saber de nada do que você vai sentir
Sozinha no seu quarto de dormir
— Marcelo Jeneci
— (Julio Cortázar, Rayuela)